Fotos: Roseli & Honorato
Jantar: Porta Romana
11/12/2011
Experiência de Pai - Affonso Romano Sant’anna
Texto adaptado do artigo publicado no Portal da Familia em Março/2003

Há um período em que nós pais vamos ficando órfãos dos nossos próprios filhos. É que as crianças crescem independentes de nós, como árvores tagarelas e pássaros estabanados. Crescem sem pedir licença.
Crescem com uma estridência alegre e, às vezes, com alardeada arrogância. Mas não crescem todos os dias, de igual maneira, crescem de repente.
Um dia, sentam-se perto de nós e dizem uma frase com tal maturidade que sentimos não poder mais trocar as fraldas daquela criatura.
Como é que cresceram esses danadinho e nós nem percebemos?
Cadê a pazinha de brincar na areia, as festinhas de aniversário com palhaços e o primeiro uniforme da maternal?
E nos vemos agora ali, na porta da discoteca, esperando não só que elas cresçam, mas que apareçam!
Ali estamos nós ao volante, esperando que eles saiam esfuziantes, cheios de si e de cabelos longos.
Entre hambúrgueres e refrigerantes nas esquinas, lá estão nossos filhos com o uniforme de sua geração: incômodas mochilas da moda nos ombros.
E nós ali, com os cabelos já esbranquiçados.
Esses são os filhos que conseguimos gerar e amar, apesar dos golpes dos ventos, das colheitas, das notícias, e da ditadura das horas.
E eles crescem meio amestrados, observando e aprendendo com nossos acertos e erros.
Principalmente com os erros que esperamos que não repitam.
Chega o momento em que nós pais vamos ficando um pouco órfãos dos próprios filhos.
Não mais os pegaremos nas portas das discotecas e das festas.
Passou o tempo do ballet, do inglês, da natação e do judô.
Saíram do banco de trás e passaram para o volante de suas próprias vidas.
É aí que percebemos que deveríamos ter ido mais à cama deles ao anoitecer para ouvirmos sua alma respirando conversas e confidências entre os lençóis da infância, e os adolescentes cobertores daquele quarto cheio de adesivos, posters, agendas coloridas e discos ensurdecedores.
Não os levamos suficientemente ao Playcenter, ao shopping, não lhes demos suficientes hambúrgueres e cocas, não lhes compramos todos os sorvetes e roupas que gostaríamos de ter comprado.
Eles cresceram sem que esgotássemos neles todo o nosso afeto.
No princípio, subiam a serra ou iam à casa de praia entre embrulhos, bolachas, engarrafamentos, natais, páscoas, piscina e amiguinhos.
Sim, havia as brigas dentro do carro, a disputa pela janela, os pedidos de chicletes e cantorias sem fim.
Depois chegou o tempo em que viajar conosco começou a ser um esforço, um sofrimento, pois era impossível deixar a turma a os primeiros namorados. 
Nós passamos a ficar exilados dos filhos.
Tínhamos a solidão que desejamos, mas, de repente, morríamos de saudades daquelas "pestes".
Chega então o momento em que só nos resta ficar de longe torcendo e rezando muito (nessa hora, se a gente tinha desaprendido, reaprende a rezar) para que eles acertem nas escolhas em busca de felicidade.
E que a conquistem do modo mais completo possível.
O jeito é esperar: qualquer hora devem nos dar netos.
O neto é a hora do carinho ocioso e estocado, não exercido nos próprios filhos, e que não pode morrer conosco.
Por isso os avós são tão desmesurados e distribuem tão incontrolável carinho. Os netos são a última oportunidade de reeditar o nosso afeto.
Por isso é necessário fazer alguma coisa a mais, antes que eles cresçam.
Aprendemos a ser filhos depois que somos pais. E só aprendemos a ser pais depois que somos avós...
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